Autor: Frank Reichstein
Minhas posses materiais são poucas e eu deixo
tudo para você... Uma coleira mastigada em uma
das extremidades, faltando dois botões, uma
desajeitada cama de cachorro e uma escudela de água
que se encontra fendada na borda.
Deixo
para você metade de uma bola de borracha, uma
boneca rasgada, que você vai encontrar debaixo
da geladeira, um ratinho de borracha sem apito, que
está debaixo do fogão da cozinha e uma
porção de ossos enterrados no canteiro
de rosas, e sob o assoalho de minha cama. Além
disso, eu deixo para você a memória,
que, aliás são muitas.
Deixo
para você a memória de dois enormes olhos
marrons, a memória de uma caudinha curta e
espetada, de nariz molhado e de choradeiras atrás
da porta.
Deixo
para você uma mancha no tapete da sala de estar
junto à janela, quando nas tardes de inverno
eu me apropriava daquele lugar, como se fosse meu,
e me enrolava feito uma bolinha para pegar um pouco
de sol.
Deixo
para você um tapete esfarrapado em frente à
sua cadeira preferida, o qual nunca foi concertado
com o tipo de linha certo, essa é a verdade.
Eu o mastiguei todinho, quando tinha ainda cinco meses
de idade, lembra-se? Também deixo para você
a memória da primeira surra que levei e também
todo o meu esquecimento.
Deixo
para você um esconderijo que fiz no jardim,
debaixo dos arbustos perto da varanda da frente, onde
eu encontrava asilo durante aqueles dias de verão.
Ele deve estar cheio de folhas agora, e, por isso,
talvez você tenha dificuldades em me encontrar.
Sinto muito!
Deixo,
também, e só para você, o barulho
que eu fazia ao sair correndo sobre as folhas de outubro,
quando nós vagabundeávamos pelo bosque.
Deixo,
ainda, a lembrança de momentos pelas manhãs
quando saíamos juntos pela margem do riacho,
e você me dava aqueles biscoitos de baunilha.
Recordo-me das suas risadas, porque eu não
conseguia alcançar aquele coelho impertinente.
Deixo-lhe como herança minha devoção,
minha simpatia, meu apoio quando as coisas não
andavam bem; meus latidos quando você levantava
a voz aborrecido... e minha frustração
por você ter ralhado comigo todas as vezes que
eu colocava o nariz debaixo da cauda. Eu nunca fui
à igreja e nunca escutei um sermão.
No entanto, mesmo sem haver falado sequer uma palavra
em toda a minha vida, deixo para você exemplo
de paciência, de amor e compreensão.
Sua
vida tem sido mais alegre porque eu vivi.