Relato de um cão

         Quando pequeno fui feliz, tinha lar, família e brincadeiras com as crianças.
         Quando adulto e mais velho, as crianças se foram, tive sossego, e abrigo.
         Quando velho, passei a não enxergar e um dia me vi sozinho vagando pelas ruas.
         Pelas ruas, tive fome, tive frio e muito medo. Barulhos que e eu não identificava, chutes, enfim. Um dia uma voz bondosa se aproximou de mim, fui pego no colo e levado para um lugar quente, com comida e água sempre no mesmo lugar (pois sou cego, lembra-se).
         Passado algum tempo, uma certa manhã, ouvi gritos, muita confusão, barulho, gente estranha. Fui jogado em um lugar com alguns amigos uivando e latindo assustados! Foram horas intermináveis, com sede sem nada e nem ninguém, só meus amigos, assustados como eu. Andamos muito. Paramos em algum lugar. Houve certa confusão e voltamos a andar de novo. Um pouco mais tarde, alguém me carregou de novo no colo e voltei ao lugar conhecido. Que alívio!!!
         Mas sinto minha dona desesperada, aflita e sem esperança.
         Ouço ela falar que será por pouco tempo,vamos embora de novo. Mas seja por onde for quero estar com ela, pois só com ela me sinto seguro!

(relato de um cão cego que foi transportado do abrigo de
onde morava com Dirma Leite)

Rosemeire Bonassi
Jornal Bom Dia